top of page

Como Sua Alimentação Conversa com Seus Medicamentos

Por Dra. Andréia Silva Amorin CRM: 24513-SC , atendimento em Psiquiatria na Clínica PsicoVivendo

Qui, 26 de Set. de 2024 | Saúde Mental e Corpo


Hoje, sentada em meu consultório após uma manhã de atendimentos, não consigo deixar de refletir sobre um tema que surge com frequência nas nossas conversas, mas que muitas vezes permanece nas sombras: a relação íntima e crucial entre o que colocamos no prato e os medicamentos que prescrevo. Não se trata apenas de "comer bem para se sentir bem". É algo muito mais profundo, quase uma dança bioquímica que acontece dentro de você, sem que você perceba.


Por anos, a psiquiatria focou quase que exclusivamente no cérebro aquele órgão magnífico de 1,4 kg que habita nosso crânio. Mas eu vejo diariamente que a saúde mental começa muito antes. Ela começa no intestino, no fígado, na corrente sanguínea. E é aí que a nossa conversa de hoje ganha vida.


O Maestro Silencioso: O Fígado

Quando você ingere um comprimido, ele não age por mágica. Ele embarca em uma jornada complexa pelo seu corpo. E o palco principal para o processamento da grande maioria dos medicamentos psiquiátricos (e de tantos outros) é o fígado.


Pense no seu fígado como um laboratório químico incansável, trabalhando 24 horas por dia. Ele é responsável pela metabolização um processo de transformação das substâncias para que possam ser utilizadas, e depois eliminadas, pelo corpo. Para fazer isso, ele utiliza um conjunto de enzimas especializadas, o famoso citocromo P450.


Aqui está a chave: tudo o que você come influencia a atividade dessas enzimas. Alguns alimentos podem induzir (acelerar) esse sistema, fazendo com que o medicamento seja processado e eliminado muito rápido. Resultado? O nível do remédio no seu sangue cai, e o efeito terapêutico desaparece. Outros alimentos podem inibir (desacelerar) o sistema, fazendo com que o medicamento se acumule. Resultado? Níveis tóxicos e efeitos colaterais intensos.

É uma orquestra delicada, e a alimentação é um dos maestros.


Exemplos Práticos: O Diálogo entre Comida e Remédio

Vamos tornar isso concreto com alguns dos medicamentos que conversamos tanto no consultório:


  1. Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS): Fluoxetina, Sertralina, Paroxetina

    • O que são: Pilares no tratamento de depressão e ansiedade.

    • O diálogo: O suco de pomelo (grapefruit) é um notório vilão aqui. Ele inibe fortemente as enzimas do fígado que metabolizam esses medicamentos. Um copo de suco pode elevar a concentração do remédio no sangue em até 3 vezes, aumentando drasticamente o risco de efeitos como sonolência extrema, náusea e até a temida síndrome serotoninérgica (agitação, confusão, taquicardia). É um risco real.


  2. Benzodiazepínicos: Clonazepam, Alprazolam, Diazepam

    • O que são: Usados para ansiedade aguda e insônia.

    • O diálogo: Além do suco de pomelo, o álcool é um perigo absoluto. Ambos deprimem o sistema nervoso central. Juntos, podem levar a uma depressão respiratória perigosa, confusão mental severa e quedas. Além disso, uma dieta muito gordurosa pode aumentar a taxa de absorção do medicamento, potencializando seus efeitos de forma imprevisível.


  3. Estabilizadores de Humor: Carbamazepina, Valproato

    • O que são: Fundamentais no tratamento do Transtorno Bipolar.

    • O diálogo: A carbamazepina, em particular, é induzida por vários alimentos. Uma dieta rica em brócolis, couve-de-bruxelas, churrasco (hidrocarbonetos da carne grelhada) pode acelerar seu metabolismo, diminuindo sua eficácia e arriscando uma descompensação do humor. Por outro lado, o valproato pode causar ganho de peso e alterar metabólitos hepáticos, exigindo uma dieta equilibrada para minimizar esse efeito.


O Caso do Lítio: Por Que o Exame de Sangue é Não Negociável

E agora vamos ao exemplo que talvez melhor ilustre a necessidade absoluta do acompanhamento. O Carbonato de Lítio é um dos tratamentos mais eficazes que temos para o Transtorno Bipolar. Ele age de forma única, estabilizando o humor na fonte. Mas ele tem uma particularidade crítica: a janela terapêutica estreita.


Isso significa que a diferença entre a dose que trata e a dose que intoxica é muito pequena. O nível ideal no sangue geralmente fica entre 0,6 e 1,2 mEq/L. Abaixo disso, não funciona. Acima de 1,5 mEq/L, começam os riscos sérios de intoxicação (náusea, tremor, confusão, dano renal).


E o que a alimentação tem a ver com isso? Tudo, especialmente o sódio (o sal).

  • O lítio compete com o sódio no rim para ser eliminado.

  • Se você reduzir drasticamente o sal na dieta, seus rins vão reter menos sódio e, consequentemente, reterão mais lítio. O nível no sangue sobe, podendo chegar à toxicidade.

  • Se você exagerar no sal, seus rins vão eliminar mais sódio e levar mais lítio junto. O nível no sangue cai, e a proteção contra os episódios de humor desaparece.


É por isso que o monitoramento com exames de sangue regulares é vital. Não é um capricho médico. É uma ferramenta de precisão. No início do tratamento, os exames são mais frequentes (semanalmente) para encontrarmos a dose ideal. Depois, se estabilizados, podem ser espaçados, mas nunca abandonados. Também monitoramos a função da tireoide e dos rins, que podem ser afetados pelo uso a longo prazo.


A Alimentação como Aliada Terapêutica

Mais do que evitar interações perigosas, uma alimentação consciente pode potencializar seu tratamento:


  • Proteínas magras, vegetais, frutas e grãos integrais fornecem os nutrientes necessários para a síntese de neurotransmissores como serotonina e dopamina.

  • A hidratação adequada (fundamental para quem usa lítio e alguns antidepressivos) ajuda o rim a trabalhar de forma equilibrada.

  • Regularidade nas refeições ajuda a manter níveis estáveis de energia e glicose no sangue, evitando picos de ansiedade e irritabilidade.


Meu Apelo Como Sua Médica

Quando nos sentamos juntos naquela sala, meu objetivo nunca é apenas "receitar um remédio". Meu objetivo é construir com você um plano de tratamento. E esse plano tem vários pilares: a psicoterapia, o medicamento (quando necessário), o exercício físico, o sono e, sim, a alimentação.


Por favor, não subestime o poder do seu prato. Conte para mim TUDO: se você começou uma dieta restritiva, se está tomando suplementos, se tem o hábito de tomar aquele suco de pomelo no café da manhã, se houve uma mudança radical no consumo de sal. Esses detalhes mudam completamente a equação.


A jornada pela saúde mental é uma integração. Cuidar da mente é cuidar do corpo que a habita. E é uma honra caminhar ao seu lado, decifrando os sinais e ajustando a rota para que você encontre, de forma plena e equilibrada, a sua própria versão de "viver bem".

Com cuidado.

Com Carinho,

Dra. Andréia Silva Amorin CRM: 24513-SC , atendimento em Psiquiatria na Clínica PsicoVivendo

Comentários


bottom of page